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Dia da Escola: histórias que mostram como a natureza transforma a educação

Em muitas escolas brasileiras, as infâncias acontecem sob o calor, potencializado pelo concreto, em pátios áridos e espaços que pouco convidam ao brincar livre, ao descanso e à descoberta. Quando a chuva vem, caminhos se alagam e rotinas se interrompem. Em outros lugares, o isolamento e a escassez de recursos tornam o cotidiano escolar ainda mais desafiador.

Entre esses contextos marcados por tantas urgências, as escolas contempladas pelo Prêmio EbN 2025 mostram algo essencial: a natureza não é um detalhe na educação; ela é caminho de cuidado, aprendizagem, pertencimento e transformação.

Em Corumbá/MS, a E.M.R.E.I. Polo Paraguai Mirim está inserida no território pantaneiro, em uma realidade marcada pelo acesso fluvial e pela força dos ciclos da natureza. Cheias, secas e incêndios atravessam a vida da comunidade, em um contexto ainda marcado por desafios estruturais importantes, como ausência de saneamento básico, alta incidência solar, escassez de água potável, poucas áreas de sombra e dificuldades no manejo de resíduos. Em resposta a esse contexto, o projeto propõe uma série de soluções integradas que articulam infraestrutura ambiental, alimentação, brincar e aprendizagem ao ar livre.

A proposta inclui um sistema central de filtragem de água, horta escolar, viveiro de mudas, compostagem e um jardim de evapotranspiração para tratamento do esgoto sanitário. Também estão previstos o plantio de árvores para ampliação das sombras, um parque de madeira com balanço, gangorra e deck na árvore, um campinho para futebol e vôlei e a Praça das Águas, com aspersores para o brincar com água. O projeto inclui ainda um portal de entrada, pensado para embelezar a escola e fortalecer o sentimento de pertencimento e autoestima das crianças.

Em Lauro de Freitas/BA, a Escola Municipal Enock Amaral está localizada em um contexto urbano periférico atravessado por desigualdades, alagamentos, ilhas de calor e racismo ambiental, que restringe o acesso de muitas crianças a espaços verdes. O grande pátio aberto do Ensino Fundamental, área central da intervenção, sofria com alagamentos que chegavam a invadir as salas de aula e, devido à intensa incidência solar, tornava-se praticamente inutilizável após as 11h, levando muitas vezes as crianças a permanecerem nas salas climatizadas, inclusive durante as refeições.

Nesse cenário, o projeto repensa o espaço a partir do manejo das águas da chuva, da criação de sombras e da ampliação das possibilidades de uso ao ar livre. O campinho será reorganizado, com inserção de rede de vôlei e rebaixamento do terreno para formar uma bacia de absorção lenta das águas pluviais. Todo o perímetro receberá valas com pedras para infiltração, plantio de bananeiras e faixa vegetal de alta absorção, compondo a solução baseada na natureza conhecida como “jardim de chuva”. Diversas estratégias de criação de sombras horizontais e verticais também foram incorporadas, além da implantação de um circuito de parkour com cordas e troncos e de um barco que remete à cultura litorânea e à temática da água.

A arborização inclui espécies diversas e uma Oiti, árvore-símbolo da cidade. Mais do que requalificar o espaço, a proposta busca transformar um pátio antes hostil em um ambiente mais fresco, acolhedor e brincante, devolvendo às crianças o direito de viver a escola também ao ar livre.

Em Paulo Lopes/SC, a Escola Profª Ernestina Pereira Martins está inserida em um município de forte relação com a natureza, mas parte de um espaço escolar coberto por seixo de construção, sem a presença de elementos verdes e com poucas oportunidades de exploração sensorial e convivência ao ar livre. Os espaços externos e o refeitório eram pequenos e isolados entre si, limitando as possibilidades de uso e interação. Para muitas crianças, especialmente aquelas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa limitação afeta diretamente a experiência escolar.

O projeto prevê a transformação das áreas livres com plantio de arbustos e herbáceas, ampliando as oportunidades de contato com a natureza. O refeitório será ampliado e melhor integrado à área externa, enquanto os diferentes espaços passam a se conectar por elementos lúdicos e brinquedos desenhados para permitir espiar através e por cima dos muro. No espaço de acolhimento das crianças com TEA, será instalado um balanço pensado para auxiliar na regulação em momentos de ansiedade. Outra área recebe um tanque de areia, e bancos e troncos criam novos espaços de convivência.

Em Itararé/SP, a Escola do Campo Profª Andréa Ferraz de Oliveira atende um território rural e dialoga com saberes locais, com práticas agroecológicas e com uma comunidade quilombola. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios socioeconômicos e os impactos de eventos climáticos extremos. O projeto aprofunda práticas já presentes na escola e traz maior intencionalidade pedagógica aos espaços: a biblioteca foi realocada para outra sala e o antigo espaço será transformado em um laboratório de ciências conectado à horta, que será requalificada com canteiros organizados, caminho acessível e uma pequena praça com mesas, bancos e redes.

Nesse mesmo espaço será construída uma casa barreada pela própria comunidade, utilizando técnicas tradicionais locais, acompanhada de um fogão a lenha. Ao lado, o pomar existente será ativado como área lúdica com brinquedos naturalizados, entre eles cozinha da floresta, trepa-troncos, traves de equilíbrio, mesas e bancos de tocos, consolidando um território educativo ao ar livre integrado ao cotidiano escolar.  Após a realocação da biblioteca para outro espaço da escola, será aberta uma nova porta de acesso que conecta o interior da escola ao espaço externo por meio de um deck de madeira com escorregador, conduzindo a um outro gramado, onde serão instaladas redes destinadas à leitura.

Em Paracambi/RJ, a Escola Municipal da Floresta está inserida em um contexto relação com a terra e com a memória agroambiental do território. O projeto nasce do desejo da escola por um espaço comunitário protegido de sol e chuva. Para isso, foi construído um deck de madeira coberto, formando uma grande varanda multiuso. Bancos hexagonais modulares ampliará as possibilidades de uso como mesa, arquibancada ou assentos individuais.

Descendo o deck, surgirá a “casa dos lagartos”, pequena cobertura e escultura lúdica inspirada na família de lagartos que vive ali. O espaço será complementado com horta educativa, trepa-tronco, área musical (pedido especial das crianças) e um espaço de convivência sob a grande mangueira. A proposta reforça a vocação da escola como espaço de encontro, brincadeira e aprendizagem em relação viva com a natureza. 

Apesar das diferenças de contexto (urbano, rural, tradicional ou pantaneiro), todas essas escolas compartilham objetivos semelhantes: expandir a aprendizagem para além dos muros, abrir o espaço físico e simbólico da escola, criar ambientes que incentivem a convivência, o brincar e o cuidado com a natureza. Essa lógica de “desemparedamento” mostra que a escola pode ser muito mais do que salas e quadras: ela pode ser um território vivo de aprendizagem, criatividade e pertencimento.

Neste Dia da Escola, as histórias das escolas premiadas pelo Prêmio EbN 2025 nos lembram que transformar a educação também é transformar o espaço onde ela acontece. Quando a natureza volta ao cotidiano escolar, muda-se a paisagem, a aprendizagem e as infâncias. É esse impacto que desejamos inspirar mais escolas em todo o Brasil, porque acreditamos que uma educação baseada na natureza é essencial para formar crianças conectadas com a vida, com o território e com presente e futuro mais justos e sustentáveis.